O trabalho não-remunerado de cuidado garante o bem-estar, a saúde e a subsistência das pessoas, dos lares e das comunidades. É um trabalho de grande magnitude, tanto em termos do tempo dedicado e do número de pessoas que o realizam, quanto do espectro de atividades que cobre para garantir a sustentabilidade da vida. Frequentemente, grande parte desse trabalho é realizado como uma compensação à ausência de investimentos públicos em infraestrutura e serviços de cuidado. Ou seja, o trabalho de cuidado representa uma transferência de recursos, especialmente das mulheres, para a sociedade e a economia.

A tradicional separação entre o que se entente por trabalho realizado como atividade econômica e trabalho realizado como atividade não-econômica promoveu a marginalização, desvalorização e privatização de todo trabalho realizado fora do mercado, especialmente das atividades de cuidado. Essas atividades, classificadas como não-econômicas, foram colocadas fora da esfera produtiva e, consequentemente, não são vistas como trabalho.

Em relatório divulgado em janeiro de 2020 pela Oxfam, os números apresentados demonstram a importância de aprimorar metodologias de geração de dados e informações sobre os cuidados, de forma a evidenciar sua magnitude e seu valor econômico. De acordo com o relatório, em todo o mundo, mulheres e meninas, especialmente as que vivem em situação de pobreza, dedicam cerca de 12 milhões e 500 mil horas diárias ao trabalho não-remunerado de cuidado. E esse trabalho agrega pelo menos US$10,8 trilhões à economia.

O trabalho não-remunerado de cuidado está estruturalmente conectado à esfera do trabalho remunerado. Por um lado, ele garante a manutenção e a reprodução da força de trabalho, sustentando o funcionamento da economia. Por outro lado, os arranjos existentes na sociedade para suprir as necessidades de cuidado definem como as pessoas, especialmente as mulheres, ingressarão no mercado de trabalho e realizarão o trabalho remunerado. Em contextos sociais nos quais não haja políticas públicas e serviços de apoio aos cuidados, bem como programas e ações corporativas nessa área, a privatização e feminização da responsabilidade pelos cuidados será reforçada. Nesse arranjo, as mulheres, especialmente as mais pobres, migrantes e pertences a grupos raciais afetados pelo racismo estrutural serão negativamente afetadas. Seu ingresso, permanência e progressão no mercado de trabalho têm maiores chances de serem marcados pela precariedade, em razão da necessidade de conciliar as responsabilidades de cuidado com o trabalho remunerado.

Apesar de sua contribuição para o funcionamento e para a própria subsistência dos sistemas econômicos e da sociedade, o trabalho não-remunerado de cuidado é excluído das contas nacionais e da mensuração da riqueza dos países, feita por meio do cálculo do Produto Interno Bruto (PIB). Isso resulta em uma subestimação de todo um conjunto de atividades que agregam valor econômico. Além disso, não considerar o cuidado no cálculo do nível de riqueza dos países significa minimizar o valor do bem-estar das pessoas, das famílias e do conjunto da sociedade.

Como apontado no relatório da OIT Care Work and Care Jobs for the Future of Decent Work, em 1995, a IV Conferência Mundial sobre a Mulher, promovida pela ONU, incluiu em seus documentos finais a recomendação de aprimorar a geração de dados e informações sobre o trabalho não-remunerado de cuidado e apontou a importância de desenvolver métodos para medir o valor econômico desse trabalho. Os avanços das pesquisas sobre uso do tempo, por exemplo, têm contribuído de forma decisiva para medir e quantificar o trabalho não remunerado de cuidado, contribuindo para uma melhor avalição e visibilização desse conjunto de atividades como um agregado macroeconômico.

Medir e quantificar o trabalho não remunerado de cuidado é, portanto, um passo decisivo para colocar os cuidados no centro da discussão sobre projetos de desenvolvimento inclusivos e sustentáveis. Ao abordar os cuidados como agregado macroeconômico evidencia-se a enorme contribuição das mulheres à manutenção dos sistemas econômicos e a necessidade de corrigir iniquidades em termos de distribuição de recurso provocadas pela invisibilidade e desvalorização desse trabalho.