A tradicional divisão entre o que hoje se considera trabalho econômico e trabalho não econômico resulta em uma intensa marginalização e subvalorização dos trabalhos de cuidado e dos trabalhos exercidos pelas mulheres durante a maternidade.

Essas atividades – ditas não econômicas e, portanto, não remuneradas – são excluídas da “esfera produtiva” e, por isso, não são capturadas pelas medidas clássicas de produção, como o Produto Interno Bruto (PIB). Quando mensuradas, são contabilizadas em contas-satélites, uma extensão ao Sistema de Contas Nacionais (SCN) que permite comparar o desempenho de um determinado setor econômico ou de aspectos da vida social e econômica de uma população frente ao desempenho da economia como um todo. 

A não-inclusão das atividades de cuidado e do trabalho doméstico não-remunerado no SCN faz com que seja difícil estimar os efeitos negativos de cortes em políticas públicas de provisão de cuidado, por exemplo. Uma alternativa para tentar corrigir esta lacuna seria por meio de pesquisas do uso do tempo, que estimam a quantidade de horas gastas nas atividades domésticas cotidianas. A partir deste levantamento, torna-se possível atribuir um valor monetário a essas atividades, seguindo o critério da terceirização: quanto se pagaria por essas horas de trabalho se elas fossem realizadas no mercado formal de trabalho? 

Costumeiramente, as contas-satélites do SCN consideram o valor médio dos salários das pessoas que desempenham essas mesmas tarefas no mercado como multiplicador ao número de horas dedicadas a elas no domicílio. Ainda assim, enxergamos uma subestimação ao valor monetário associado a essas atividades, dado que o salário pago no desempenho dos trabalhos de cuidado no mercado é consideravelmente baixo. 

Sobre esse assunto, a economia feminista defende o desenvolvimento de instrumentos de medida voltados diretamente para este tipo de trabalho, já que o uso da média dos salários desconsidera que o serviço usado como parâmetro de mercado pode não ser comparável ao trabalho executado no domicílio. Por exemplo, uma mãe, que possui o título de pós-doutorado, prepara o jantar todos os dias para a sua filha. O valor monetário adequado para o cálculo seria o valor que essa mãe pagaria a uma outra pessoa, com título de pós-doutorado, para realizar a mesma atividade em seu lugar.

Outra abordagem seria a de isolar o valor do tempo dedicado ao trabalho não econômico, tomando o valor do bem ou serviço ao qual estamos comparando, subtraído dos insumos utilizados para sua realização e dos custos dos bens de capital. O resultado dessa subtração seria nada mais que o valor do trabalho. Retomemos o exemplo anterior: com esse método, tomaríamos o preço de um jantar em um restaurante, que seja equivalente ao que a mãe prepararia para a criança, deduziríamos o preço dos ingredientes que ela utilizaria, o preço do gás, etc. O valor final do cálculo seria o valor do tempo de trabalho dessa mulher.

Outro método de mensuração possível é via custo de oportunidade, ou seja, quanto uma pessoa deixaria de ganhar no mercado formal de trabalho para desempenhar uma atividade não remunerada em seu domicílio. A partir desse método e utilizando dados de 53 países, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que o trabalho de cuidado não-remunerado representaria aproximadamente US$ 11 trilhões ou cerca de 9% do PIB mundial, sendo que, deste montante, US$ 8 trilhões seriam gerados exclusivamente pelas mulheres. Ou seja, anualmente, uma quantia equivalente à produção da Índia deixaria de ser considerada no levantamento da riqueza mundial.

Ao ocuparem o papel de provedoras majoritárias do cuidado no ambiente doméstico, as mulheres abdicam de oportunidades econômicas e (por que não dizer) de seu próprio bem-estar em prol do bem-estar de outras pessoas.  Neste sentido, quando deixamos de reconhecer e de mensurar o valor do trabalho de cuidado, reforçamos os papéis de gênero e intensificamos a enorme desigualdade entre homens e mulheres.