A inserção das mulheres no mercado de trabalho tem sido um processo gradual e complexo, marcado pelo enfrentamento de diversos obstáculos ao longo das décadas. Uma das principais dificuldades que as mulheres enfrentam em sua inserção no mercado de trabalho é conciliar a carga de trabalho decorrente de suas responsabilidades familiares com o trabalho remunerado, o que muitas vezes limita sua capacidade de se manter e progredir no mercado de trabalho.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2022, 30% das mulheres desocupadas não procuravam emprego porque precisavam cuidar de seus familiares e realizar os afazeres domésticos de sua casa. Comparativamente, o maior motivo para não buscar trabalho entre os homens era o de que não havia trabalho na localidade onde estavam: 35,6% dos homens negros e 20,0% dos homens brancos utilizaram essa justificativa. Somente 2,95% dos homens negros e 5,32% dos homens brancos responsabilizavam os afazeres domésticos e o cuidado com familiares para não procurarem emprego.

A distribuição desigual das tarefas domésticas é uma realidade persistente na sociedade brasileira, atingindo as mulheres de maneira desproporcional. Os avanços em relação à divisão de responsabilidades entre homens e mulheres ainda são incipientes e localizados, e ainda é comum que as mulheres assumam a maior parte das responsabilidades domésticas e do cuidado dos filhos, filhas e demais familiares. Essa sobrecarga de trabalho não remunerado cria uma barreira significativa para a inserção das mulheres no mercado de trabalho.

É fundamental destacar que mesmo as mulheres não são afetadas da mesma maneira pela sobrecarga de trabalho de cuidado: enquanto as mulheres brancas com mais renda para terceirizar o trabalho de cuidado podem contratar serviços de cuidado que diminuem a sobrecarga, as mulheres negras, que mais frequentemente estão ocupadas em trabalhos mais precários e tem em média renda menor,  são mais sobrecarregadas com a necessidade de conciliar o trabalho de cuidado não remunerado com o trabalho remunerado. 

A necessidade de conciliar as tarefas domésticas com o trabalho remunerado implica em uma jornada dupla ou até mesmo tripla para muitas mulheres, o que resulta em menor disponibilidade de tempo e energia para procurar emprego, investir em qualificação profissional ou se dedicar a atividades que promovam o desenvolvimento de suas carreiras. 

A falta de infraestrutura de cuidado adequada, como creches e centros de cuidado infantil, impacta diretamente a inserção das mulheres no mercado de trabalho. A ausência de serviços confiáveis, acessíveis e de qualidade para cuidar das crianças enquanto as mães trabalham dificulta a busca por emprego e a manutenção de uma carreira profissional estável. Isso contribui para a perpetuação do ciclo de desigualdade de gênero e raça no mercado de trabalho, com menos mulheres, especialmente mulheres negras, ocupando posições de liderança e recebendo salários menores que os dos homens.

Além das questões relacionadas às responsabilidades domésticas e de cuidado, as mulheres também enfrentam outras barreiras estruturais no mercado de trabalho, como a discriminação de gênero, a segregação ocupacional e a diferença salarial. Estereótipos de gênero e raça ainda influenciam na percepção das habilidades e capacidades das mulheres, principalmente das mulheres negras, limitando suas oportunidades de emprego e avanço na carreira. A falta de representatividade feminina em posições de liderança e a persistência de uma cultura organizacional patriarcal também contribuem para dificultar a inserção e progressão das mulheres no mercado de trabalho.

Para superar essas barreiras, é fundamental a implementação de políticas públicas que promovam a igualdade de gênero e raça e garantam condições adequadas para a inserção das mulheres no mercado de trabalho. Isso inclui medidas como a criação de políticas de licença parental remunerada, investimentos em infraestrutura de cuidado acessível e de qualidade, promoção da igualdade salarial, estímulo à participação feminina em setores tradicionalmente masculinos, além de campanhas de conscientização e combate à discriminação de gênero e raça.

É preciso também promover uma mudança cultural e social que valorize o trabalho de cuidado e reconheça sua importância para a sociedade como um todo, compartilhando de forma mais equitativa as responsabilidades domésticas e de cuidado entre homens e mulheres e entre famílias e o Estado, o setor privado e as comunidades.

As barreiras enfrentadas pelas mulheres para sua inserção no mercado de trabalho estão diretamente relacionadas às desigualdades de gênero e raça e à sobrecarga de trabalho não remunerado. Superar essas barreiras requer uma abordagem abrangente que envolva tanto políticas públicas quanto mudanças culturais, a fim de promover a equidade de gênero e raça, garantir oportunidades igualitárias e criar um ambiente propício para o pleno desenvolvimento e participação das mulheres no mercado de trabalho.