O debate sobre o fim da escala 6×1 é também um debate sobre cuidado. Embora essa dimensão raramente ocupe o centro das discussões, ela é fundamental. Uma jornada semanal de 44 horas, distribuída em seis dias de trabalho e apenas um de descanso, é difícil de conciliar com o direito de cuidar e de ser cuidado. O cuidado de qualidade exige tempo: tempo para cuidar de crianças, de pessoas idosas, de pessoas com deficiência ou que enfrentam problemas de saúde; tempo para cuidar de si; tempo para construir e manter os vínculos que sustentam a vida em sociedade.
Essa discussão também nos convida a ampliar nossa compreensão sobre o próprio cuidado. Frequentemente ele é tratado como uma responsabilidade privada das famílias, sobretudo das mulheres. No entanto, o cuidado é uma necessidade universal e um direito humano. Todas as pessoas precisam de cuidado em diferentes momentos da vida e todas deveriam ter condições de cuidar de si mesmas e de suas famílias, contando com o apoio do Estado, do mercado e da comunidade.
Quando entendemos que o cuidado é uma necessidade e um direito, fica evidente que ele não deve ser visto como um problema a ser resolvido, mas como uma condição indispensável para sociedades mais justas, saudáveis e prósperas. Investir em cuidado significa promover o desenvolvimento infantil, preservar a autonomia e a dignidade das pessoas que necessitam de apoio, fortalecer a saúde física e mental da população e ampliar as oportunidades de participação econômica e social. Também faz sentido do ponto de vista econômico: sociedades que investem em sistemas de cuidado mais robustos tendem a gerar empregos, aumentar a produtividade e reduzir desigualdades.
É nesse sentido que o fim da escala 6×1 deve ser compreendido como parte da construção de uma sociedade que cuida. Reduzir a jornada de trabalho representa um investimento fundamental na capacidade de cuidado das famílias e na qualidade das relações que sustentam a vida.
Mas por que precisamos investir em mais tempo para cuidar? É verdade que parte do trabalho de cuidado pode e deve ser reduzida por meio de infraestrutura, serviços públicos e tecnologias que diminuam o tempo dedicado às tarefas domésticas e ao cuidado indireto. No entanto, o cuidado relacional, aquele que envolve presença, escuta, afeto e convivência, não pode ser comprimido nem substituído por ganhos de eficiência. Cuidar bem exige tempo.
E quem são os trabalhadores e trabalhadoras mais afetados pela falta de tempo decorrente das longas jornadas? Um estudo do Ipea mostra que a jornada semanal de 44 horas é mais comum entre trabalhadores em ocupações mais precárias, marcadas por menores salários, maior rotatividade e menor escolaridade. O estudo também demonstra que, entre aqueles que trabalham mais de 40 horas por semana e recebem menos de dois salários mínimos, a participação das mulheres é maior do que a dos homens. Soma-se a isso o fato de que as mulheres, e particularmente as mulheres em situação de maior vulnerabilidade econômica, são as mais ocupadas com o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado. Dados do IBGE mostram que as mulheres dedicam, em média, quase o dobro do tempo dos homens aos cuidados de pessoas e aos afazeres domésticos (21,3 horas, contra 11,7 horas semanais). Entre as mulheres situadas nos 20% de menores rendimentos, essa desigualdade é ainda maior: em 2022, elas dedicaram 7,3 horas semanais a mais ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerado do que aquelas pertencentes aos 20% de maiores rendimentos. As mulheres negras, em média, dedicam 1,6 horas a mais a essas atividades do que as mulheres brancas.
Discutir o fim da escala 6×1 é, portanto, discutir o tipo de sociedade que queremos construir. Reduzir jornadas de trabalho não significa apenas melhorar as condições de emprego. Significa ampliar o tempo disponível para o cuidado de si, das crianças, das pessoas idosas, das pessoas com deficiência, das famílias e das comunidades. Significa reconhecer que o tempo é um recurso essencial para sustentar a vida e que o direito ao cuidado depende, antes de tudo, da possibilidade concreta de exercê-lo.
Se queremos construir uma sociedade que reconheça o cuidado como um direito e um bem público, não podemos ignorar a forma como organizamos o tempo de trabalho. Em última instância, o debate sobre a escala 6×1 é um debate sobre o valor que atribuímos ao cuidado e à própria vida.
