Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2022 revelaram uma importante mudança na configuração dos domicílios brasileiros. Segundo a pesquisa, , revertendo uma longa série histórica em que homens eram os principais responsáveis pelos lares do Brasil. Esse movimento ocorreu principalmente devido ao aumento da responsabilidade de mulheres negras sobre seus lares, ainda mais acentuado durante a pandemia da COVID-19. No último trimestre de 2022, 28,37% dos domicílios brasileiros eram chefiados por mulheres negras, enquanto 27,18% estavam sob responsabilidade de homens negros, 21,33% de mulheres brancas e outros 21,33% de homens brancos.

Esse é um fenômeno que revela importantes desafios não somente em termos de gênero, como também de raça, na sociedade brasileira. Outro dado relevante levantado pela pesquisa é o de que, ainda que as mulheres negras sejam maioria na chefia das famílias, os domicílios sob os quais estão responsáveis apresentam a menor renda domiciliar per capita dentre os grupos analisados (R$973). Comparativamente, nos domicílios chefiados por homens brancos, essa mesma renda é de aproximadamente R$2.480.

As disparidades aqui evidenciadas mostram que, apesar de reconhecermos que o gênero é fundamental para a análise do trabalho de cuidado, ela não pode ser desvinculada da questão racial. As mulheres, especialmente as mulheres negras ,enfrentam um sistema de desigualdades estruturais de gênero e raça que as coloca em desvantagem, resultando em menor acesso a  proteção social, empregos bem remunerados e oportunidades educacionais. Suas condições de trabalho e acesso a recursos são afetadas de maneira diferenciada, o que exige ações afirmativas e políticas inclusivas que considerem essa interseccionalidade. São justamente essas condições desfavoráveis que impactam diretamente o rendimento dos domicílios que elas chefiam, gerando uma desvantagem econômica persistente.

Além disso, a tendência crescente de famílias monoparentais, principalmente chefiadas por mulheres negras, também destaca a necessidade de políticas públicas e apoio estatal voltados para essas famílias, de modo a diminuir as desigualdades socioeconômicas e proporcionar um ambiente adequado para o desenvolvimento dessas mulheres, das crianças e o bem-estar geral das famílias.

É essencial abordarmos também os conceitos de masculinidade e de paternidade. Ainda existe uma expectativa social de que os homens sejam os principais provedores financeiros, o que pode dificultar a reconfiguração dos papéis de gênero e a promoção de um maior equilíbrio na corresponsabilidade familiar. É fundamental que haja uma maior valorização do trabalho de cuidado, que é majoritariamente realizado pelas mulheres, e de uma melhor divisão da responsabilidade pelo cuidado e pelos afazeres domésticos, reconhecendo a importância da participação ativa na vida familiar.

Para promover uma mudança significativa, é necessário um esforço coletivo e abordagens integradas. É preciso trabalhar na desconstrução dos estereótipos de gênero e raça, investir em educação inclusiva, políticas de igualdade salarial, programas de apoio à maternidade e paternidade, além de medidas específicas para combater o racismo estrutural e garantir a representatividade das mulheres negras em todas as esferas da sociedade.

A equidade de gênero e raça é um objetivo fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Reconhecer as desigualdades enfrentadas pelas mulheres, em particular pelas mulheres negras, e tomar medidas concretas para enfrentar esses desafios é um passo necessário para avançarmos rumo a um futuro mais equitativo e inclusivo para todas as pessoas.