Os cuidados são parte estruturante e fundamental de toda e qualquer organização social. É o trabalho de cuidado que garante a sustentabilidade da vida, o funcionamento da sociedade e da economia. A própria existência de indivíduos autônomos e de trabalhadores e trabalhadoras produtivos é garantida pelo trabalho de cuidado. Em sua essência, é ele que garante a existência da humanidade. Grande parte desse trabalho é realizado de forma não-remunerada, no interior das famílias, e especialmente pelas mulheres. E, apesar de sua importância, é um trabalho invisibilizado e desvalorizado.

Essa forma de organizar e distribuir as responsabilidades pelo cuidado tem se mostrado ineficiente para atender às necessidades das famílias, das pessoas responsáveis pelos cuidados e das pessoas que necessitam de cuidados, e essa ineficiência tem impactos sociais e econômicos. Por um lado, a concentração da responsabilidade pelos cuidados nas famílias e especialmente nas mulheres cria barreiras para que elas ingressem e progridam no mercado de trabalho, minando suas possibilidades de acesso a melhores postos de trabalho e melhores rendimentos. Isso significa um desperdício de força de trabalho que afeta a trajetória de crescimento econômico do país. Além disso, torna as famílias mais vulneráveis à pobreza e aprofunda desigualdades sociais.

As políticas públicas de cuidado são o mecanismo por meio do qual o Estado participa dos cuidados, reduzindo a pressão sobre as famílias e, especialmente, sobre as mulheres. São políticas públicas por meio das quais recursos são alocados para garantir o reconhecimento, a redução e redistribuição do trabalho não-remunerado de cuidado entre mulheres e homens, e entre as famílias e o Estado (ILO, 2018).

Podemos pensar as políticas públicas de cuidado como sendo executadas por meio da oferta de benefícios financeiros e de serviços públicos de cuidado, e por meio da oferta de outros serviços, que tenham como resultado reduzir o tempo dedicado ao trabalho não-remunerado de cuidado. Essas políticas incluem a oferta de serviços de cuidado para crianças e pessoas idosas; políticas de proteção social que garantam o pagamento de benefícios para trabalhadoras e trabalhadores que possuem responsabilidades de cuidado ou para pessoas que necessitam de cuidado; oferta de serviços de infraestrutura relacionados ao acesso à energia elétrica, à água e saneamento básico; além de regulamentações relacionadas especificamente ao mundo do trabalho como licenças e políticas que promovam um maior equilíbrio entre trabalho remunerado e não-remunerado (ILO, 2018).

Políticas públicas de cuidado, quando desenhadas com objetivo de garantir os direitos humanos e o bem estar das pessoas que cuidam e daquelas que necessitam de cuidados, têm um efeito transformador e impactos econômicos e sociais significativos. Um maior investimento público em políticas de cuidado tem o potencial de promover a inclusão social e reduzir a pobreza; de gerar empregos; e de promover a equidade de gênero. Têm impactos positivos no sentido de uma maior e melhor inserção das mulheres no mercado de trabalho; em uma maior e melhor participação dos homens nas atividades de cuidado; no desenvolvimento infantil; e no atendimento das necessidades de pessoas que necessitam de cuidados, como pessoas idosas, com deficiência ou com doenças crônicas.