A forma como as responsabilidades pelos cuidados são distribuídas e organizadas em nossa sociedade estão assentadas em estereótipos construídos ao longo de processos históricos e culturais.
Mas, afinal, o que são estereótipos?
Estereótipos são ideias que atribuem certas qualidades a determinados grupos humanos, definindo expectativas com relação a comportamentos, atitudes e habilidades. São marcas dadas aos indivíduos que se tornam fixas e inalteráveis. Além de serem fixos, os estereótipos estabelecem uma hierarquia com relação a esses atributos: determinadas características e comportamentos são mais valorizados do que outros. Portanto, quando falamos em estereótipos, também estamos falando de distribuição de poder.
Lançando um olhar sobre a relação entre masculinidades e cuidados, percebemos que há um conjunto de comportamentos, atitudes e habilidades estereotipados, considerados tipicamente masculinos, e que orientam a posição social que os homens ocupam com relação a essas atividades. Aptidões associadas a estereótipos masculinos como liderança, capacidade para supervisionar o trabalho de outras pessoas e para atividades que exigem raciocínio lógico são valorizadas e exaltadas nos ambientes corporativos, mas não se relacionam a atividades de cuidado.
Aos homens é conferido o lugar de provedor, e o cuidado se limita à responsabilidade pela mobilização de recursos financeiros para o sustento da família. A gestão e realização dos cuidados no dia a dia não caberia a ele, pois suas competências, habilidades, energia e tempo deveriam estar à disposição do mercado de trabalho. A essa expectativa de comportamento soma-se a hierarquização: o trabalho remunerado, realizado no mercado de trabalho, é considerado mais importante, como tendo maior valor, do que o trabalho de cuidado, realizado, em grande parte, sem remuneração, dentro dos lares.
Os estereótipos associados à masculinidade têm uma série de desdobramentos: afetam a divisão de responsabilidades pelas atividades de cuidado dentro das famílias; impactam a estruturação do mercado de trabalho, o desenho de políticas públicas e a cultura organizacional de empresas e organizações. Criam a imagem de um trabalhador que possui uma maior necessidade de renda em razão de suas responsabilidades de prover a família, sendo, portanto, a prioridade no desenho das políticas públicas de emprego. Também criam a imagem de um “trabalhador ideal”, que está mais disponível para o mercado de trabalho e para as demandas corporativas, na medida em que não possui “impedimentos” associados ao dia a dia da gestão e realização das atividades de cuidado.
Essas imagens estabelecem uma lógica de produção e reprodução de privilégios, ampliando as oportunidades de acesso a postos de trabalho nos setores mais estruturados da economia, aumentando as chances de se auferir rendimentos mais elevados e de ascender a postos de trabalho de maior prestígio. Essa é uma dinâmica que retroalimenta desigualdades, que gera uma série de discriminações no mercado de trabalho e que torna os ambientes de trabalho menos equitativos e menos diversos.
Avançar no processo de construção de novas masculinidades é contribuir para romper com esse ciclo. Esse processo passa, necessariamente, por uma leitura crítica dos estereótipos masculinos com relação aos cuidados e pela definição de novos padrões e expectativas de comportamento, assentados na noção de co-responsabilidade pelos cuidados – esse trabalho que sustenta a vida, que gera valor, que estrutura a sociedade e movimenta a economia.
