Gênero, raça e as desigualdades salariais nos setores dos cuidados no Brasil
No Brasil, é uma realidade indiscutível que as mulheres são maioria nas ocupações relacionadas ao trabalho de cuidados. Na educação, as mulheres representam 74,5% do total da população ocupada no setor. Já na saúde, elas são 73,3% do total de profissionais e, na assistência social, 81,4%. No entanto, é alarmante constatar que, apesar de sua representatividade nessas áreas, as mulheres continuam a enfrentar enormes desigualdades salariais em comparação com os homens.
Quando analisamos os dados de rendimento mensal médio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2022, fica evidente o persistente desequilíbrio salarial. De acordo com a pesquisa, o rendimento médio mensal dos homens na área da saúde é de R$6.329, enquanto o das mulheres é de R$3.349 – o equivalente a 52,9% do rendimento masculino.
Essa diferença de salários é ainda mais preocupante quando avaliamos a partir da interseccionalidade de gênero e raça. O rendimento mensal médio de um homem branco na saúde é de R$8.176,00. Enquanto as mulheres brancas têm um rendimento médio de R$3.962,00, as mulheres negras são ainda mais desfavorecidas, com um rendimento médio de R$2.664,00. Ou seja, os homens brancos recebem aproximadamente duas vezes mais, em comparação às mulheres brancas, e quatro vezes mais que as mulheres negras na mesma área de atuação.
Essas discrepâncias salariais são resultado de uma série de fatores complexos e interligados. Um dos principais é a persistência de estereótipos de gênero arraigados em nossa sociedade, que resultam na desvalorização e na sub-remuneração das mulheres em diversas profissões, principalmente àquelas relacionadas aos cuidados.
Outro fator importante é a divisão desigual do trabalho doméstico e de cuidados, que sobrecarrega as mulheres e limita suas oportunidades profissionais. As mulheres seguem assumindo a maior parte das responsabilidades relacionadas ao lar e aos cuidados com os filhos e familiares, o que pode impactar sua disponibilidade para o trabalho remunerado.
Além disso, a discriminação racial é um componente adicional que agrava a desigualdade salarial. Os dados revelam que homens negros e mulheres negras recebem salários ainda mais baixos em comparação com seus pares brancos, evidenciando ainda mais a importância da interseccionalidade de gênero e raça em toda e qualquer análise que se realize sobre o tema das desigualdades no mundo do trabalho.
A disparidade salarial traz consequências significativas para a vida das mulheres. Ela perpetua uma desigualdade econômica e dificulta a conquista da independência financeira, limitando suas oportunidades de crescimento profissional e dificultando sua participação plena no mercado de trabalho. Além disso, também contribui para a feminização da pobreza, afetando especialmente as mulheres que são chefes de famílias monoparentais, que no Brasil são em sua maioria mulheres negras.
Para combater essa situação injusta, é necessária a adoção de múltiplos instrumentos. Políticas públicas que promovam a igualdade de gênero e raça devem ser implementadas, com o objetivo de reduzir as desigualdades salariais e garantir remuneração justa e equitativa para todas e todos os trabalhadores. Isso envolve, dentre outras abordagens, a adoção de medidas como a implementação de políticas de igualdade salarial, a promoção de licença parental igualitária e a criação de oportunidades de capacitação e desenvolvimento profissional para as mulheres.
Além disso, é fundamental combater os estereótipos de gênero desde cedo, por meio de uma educação inclusiva e igualitária, que promova a desconstrução de preconceitos e valorize o trabalho e as contribuições de todas as pessoas, independentemente do gênero.
Embora as mulheres sejam maioria nas ocupações das áreas da educação, saúde e assistência social no Brasil, a disparidade salarial persistente é uma triste realidade. A desvalorização do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres contribui enormemente para essa desigualdade. É fundamental implementar políticas e medidas que promovam a igualdade salarial, combatam os estereótipos de gênero e raça, e garantam que todas as pessoas sejam valorizadas e remuneradas de forma justa pelo seu trabalho.
