Segundo dados do Censo Demográfico de 2022, divulgado recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2010 e 2022, a taxa de crescimento populacional do Brasil foi de 0,52% – a menor taxa registrada pela organização desde a realização do primeiro censo no país, em 1872. Os números chamam a atenção para o fato de a população brasileira em 2022 estar 7 milhões inferior à estimativa realizada pelo próprio IBGE no Censo de 2010, em que esperava-se que o Brasil atingisse os 215 milhões de habitantes. Dentre os principais motivos para essa diminuição, estão a queda na taxa de fecundidade e natalidade no país, associadas ao envelhecimento da população.

O trabalho de cuidado desempenha um papel fundamental na sociedade, especialmente no contexto da janela demográfica ou bônus demográfico, um fenômeno em que a proporção de pessoas em idade produtiva é maior do que a de dependentes, ou seja, crianças e idosos. A janela demográfica no Brasil teve início na década de 1970 e atingiu seu auge na década de 2010. As projeções indicam que essa janela deve se fechar na próxima década e, até lá, o país precisa aproveitar as oportunidades para alavancar seu crescimento econômico e fornecer uma melhor qualidade de vida para sua população.

Esse cenário traz à tona a necessidade urgente de políticas públicas voltadas para o cuidado da população idosa. A transição demográfica que o Brasil enfrenta, com o envelhecimento da população, impõe desafios significativos para a sociedade. Com o aumento da expectativa de vida e a redução da taxa de natalidade, a proporção de idosos na população tende a crescer, demandando uma infraestrutura e um suporte adequados para atender às necessidades dessa parcela da sociedade.

O trabalho de cuidado voltado para a população idosa abrange uma ampla gama de atividades, desde o cuidado físico e emocional até o apoio nas atividades diárias, como alimentação, higiene pessoal, acompanhamento médico e socialização. Essas tarefas muitas vezes recaem sobre familiares, especialmente mulheres, que assumem a responsabilidade do cuidado não remunerado. No entanto, é preciso reconhecer que essa sobrecarga pode comprometer a saúde e o bem-estar das cuidadoras e cuidadores, além de limitar suas oportunidades econômicas e sociais.

Diante desse panorama, torna-se essencial o desenvolvimento de políticas públicas que atendam às demandas específicas do cuidado da população idosa. O Estado deve investir em programas que ofereçam suporte adequado aos idosos, idosas e suas famílias, buscando garantir uma qualidade de vida digna e promover o envelhecimento saudável e ativo.

Um aspecto importante é a criação de serviços de cuidado de longa duração, como instituições de longa permanência e centros dia, que possam acolher e atender às necessidades de idosos e idosas, inclusive a demanda por cuidados mais especializados. Esses espaços devem ser acessíveis, oferecendo cuidados de qualidade, atividades recreativas e suporte emocional, visando proporcionar um ambiente acolhedor e estimulante para os e as beneficiárias deste serviço.

Além disso, é crucial investir na capacitação e valorização dos profissionais de cuidado, como cuidadoras, cuidadores e auxiliares de enfermagem, oferecendo formação adequada, condições de trabalho dignas e remuneração justa. Isso contribuirá para garantir a qualidade dos serviços prestados e promover uma cultura de respeito e cuidado com a terceira idade.

Outro ponto a ser considerado é o desenvolvimento de políticas de valorização e reconhecimento do trabalho não remunerado de cuidado, que facilitem a conciliação entre trabalho remunerado e cuidado, permitindo que os familiares tenham condições adequadas para exercer o papel de cuidadores e cuidadoras sem prejudicar sua vida profissional. Isso pode incluir a implementação de medidas como licenças remuneradas para cuidar de idosos e idosas dependentes, flexibilidade de horários e a disponibilidade de serviços de apoio.

O desafio de enfrentar a janela demográfica no Brasil requer uma abordagem abrangente e integrada. É necessário um investimento contínuo em pesquisa e análise demográfica para embasar políticas públicas eficazes e adaptadas às necessidades da população idosa. Além disso, é fundamental promover uma cultura de cuidado e valorização das pessoas idosas, que promova a autonomia, combata o preconceito e garanta seus direitos fundamentais.

Em suma, o trabalho de cuidado e a janela demográfica no Brasil são questões interligadas que demandam atenção e ação do Estado e da sociedade como um todo. É preciso priorizar políticas públicas que valorizem e apoiem o cuidado voltado para a população idosa, oferecendo infraestrutura adequada, serviços de qualidade e suporte às cuidadoras e aos cuidadores, a fim de garantir um envelhecimento saudável, digno e inclusivo.