A pandemia da COVID-19 revelou o quanto o funcionamento da sociedade e da economia depende do trabalho de cuidado realizado de forma não-remunerada pelas mulheres. Revelou também o quanto os atuais arranjos que orientam a distribuição de responsabilidades pelas atividades de cuidado são frágeis, e reforçam e alimentam desigualdades. Em um momento de crise, esses arranjos se mostraram insuficientes, o que gerou um enorme impacto sobre as famílias, especialmente sobre as mulheres.

O aumento da demanda por cuidados no contexto da pandemia ocorreu em um cenário de persistente negligência com relação à formulação e implementação de políticas públicas, programas e ações de apoio aos cuidados, o que afetou negativamente o mercado de trabalho. Os indicadores mais recentes mostram uma saída massiva de mulheres do mercado de trabalho e uma redução do tempo dedicado pelas mulheres ao trabalho remunerado. Essa situação fragiliza a autonomia econômica das mulheres, aumentando sua vulnerabilidade e de suas famílias à pobreza.

Os atuais arranjos que orientam a distribuição de responsabilidades pelos cuidados são baseados na suposição de que o tempo das mulheres é infinito, e de que o trabalho de cuidado é de responsabilidade das famílias, algo que pertence à esfera privada da vida. Essa lógica se reflete no contexto de formulação de políticas públicas. A maioria dos governos não considera o cuidado como uma área central e fundamental de investimento. De acordo com dados levantados pela ONU-Mulheres, mesmo em um contexto de aumento exponencial da demanda por cuidados, apenas 11% das medidas de enfrentamento à pandemia adotadas pelos governos foram dirigidas para o apoio ao trabalho não-remunerado de cuidado.

Diante desse cenário, uma oportunidade se apresenta: incorporar os cuidados no centro das estratégias de recuperação econômica pós-pandemia, de forma a estabelecer bases sólidas para amortecer impactos de crises futuras e fomentar projetos de desenvolvimento sustentáveis. Para isso é necessário superar a visão de que os cuidados são parte da esfera privada da vida e de responsabilidade das mulheres, e passar a abordá-lo como área essencial de investimento público.

Duas abordagens são fundamentais para isso. Primeiramente, incorporar o investimento nos cuidados como um componente central do investimento em infraestrutura. Ou seja, reconhecer os cuidados como base indispensável para o funcionamento dos diversos setores da economia e como um elo imprescindível de qualquer cadeia de valor. E, além disso, investir nos cuidados como um setor econômico, capaz de gerar empregos e oferecer serviços essenciais, com o potencial de amortecer os impactos negativos de crises futuras sobre os demais setores da economia, sobre o mercado de trabalho, sobre as famílias e, especialmente, sobre as mulheres.