No dia 19 de março de 2020, a COVID-19 fez uma vítima bastante emblemática: a trabalhadora doméstica, Cleonice Gonçalves, de 63 anos. Cleonice contraiu o vírus, no local de trabalho, de sua chefe que havia voltado recentemente de uma viagem à Itália – país que apresentava índices bastante elevados de casos da doença à época. Ainda que em quarentena, a empregadora optou por não dispensar a funcionária e somente comunicou o resultado positivo de seu teste para o vírus um dia após a internação de Cleonice. Hipertensa e diabética, a trabalhadora não resistiu e veio à óbito.
O caso de Cleonice chama a atenção não somente pela vulnerabilidade sob a qual uma parcela expressiva da população brasileira continua submetida, mas também traz à tona uma questão de suma importância e ainda bastante invisibilizada: o trabalho de cuidado. Os cuidados são vitais para o funcionamento da sociedade e para a sustentação da produção econômica. Invariavelmente, todas e todos nós precisamos de abrigo, alimentação de qualidade, vestimentas limpas, atenção à saúde, assistência para com crianças e pessoas em idade avançada. É o trabalho de cuidado que fornece as bases para que as pessoas consigam exercer suas funções cotidianas e é ele também que apoia, educa e forma a força de trabalho do futuro.
A pandemia da COVID-19 escancarou a importância e a necessidade que a sociedade tem de cuidados e de um tipo de trabalho que, por muito tempo, havia sido mantido (e continua, em certa medida) dentro do ambiente privado, sem espaço para discussões e intervenções exteriores. Em um cenário como este, agravado pelo isolamento resultante da crise sanitária e pela histórica desvalorização do trabalho de cuidado, as pessoas responsáveis por este tipo de atividade são obrigadas a encontrar soluções individuais, sem contar com apoio prático e emocional.
A fim de medir o impacto da pandemia sobre o bem-estar dos cuidadores e das cuidadoras, a Embracing Carers – iniciativa global, liderada pela farmacêutica Merck com a colaboração de organizações mundiais de cuidadores não-profissionais – entrevistou mais de 9.000 pessoas em um total de 12 países. Segundo a pesquisa, no Brasil, a pandemia aumentou a demanda pelo número de horas do trabalho de cuidado em 47,5% (passando de 17,7 horas, antes da eclosão da crise sanitária, para 26,1 horas no auge das infecções em 2020). O levantamento também mostrou que 22% dos brasileiros e brasileiras estão exercendo atividades de cuidado pela primeira vez em suas vidas.
Os efeitos da pandemia no Brasil parecem ser maiores, quando comparados aos demais países participantes da pesquisa. Dentre os cuidadores e cuidadoras brasileiras, 46% alegam que estão sendo mais demandados e demandadas durante a pandemia e 83% relatam um maior esgotamento (físico, emocional e financeiro) do que em qualquer outro momento anterior. As médias mundiais para esses dois indicadores são de 39% e 76%, respectivamente. Ainda segundo a pesquisa, 94% dos entrevistados e entrevistadas afirmam que o papel que desempenham não é amplamente reconhecido pela sociedade.
Os resultados da pesquisa são claros: para além de todas as medidas de apoio e mitigação dos impactos sociais e econômicos da crise sanitária, os cuidados precisam ser reconhecidos e valorizados para que a sociedade consiga superar os desafios atuais. Colocar os cuidados no centro do debate é reforçar a consideração e esperança na humanidade (tão fortemente balançada pela COVID-19) e repensar uma nova forma de organização social, que reconheça a interdependência entre trabalho produtivo e reprodutivo.
