Com a necessidade de distanciamento social imposta pela pandemia da COVID-19, muitas empresas e profissionais adotaram o trabalho remoto. Esse modelo de trabalho tem vantagens sanitárias importantes nesse momento. Entretanto, com o fechamento de escolas e outros equipamentos e serviços de cuidados, o trabalho remoto pode representar uma ameaça para o desenvolvimento profissional das mulheres e outras pessoas que cuidam, caso não sejam adotadas medidas que tenham por objetivo mitigar os conflitos advindos desse arranjo.
Estudo do IPEA, elaborado com base nos dados da PNAD COVID-19 do IBGE mostra que, entre maio e novembro de 2020, entre 8,9 e 7,3 milhões de pessoas ocupadas estavam em trabalho remoto – ou 9,1% das pessoas ocupadas em novembro de 2020. 61,9% estavam no setor privado e 84,4% eram trabalhadores formalizados. As mulheres brancas eram o maior grupo – 57,8% eram mulheres e 65,3% das pessoas se identificavam como brancas. 76% tinha o ensino superior completo e 58,3% estavam no sudeste – apenas 3,3% estavam na região norte do Brasil
Esse mesmo período coincide com o aumento da carga de trabalho de cuidado a ser realizado dentro dos domicílios. O fechamento das escolas e creches aumentou as horas necessárias para cuidado das crianças dentro de casa e trouxe desafios adicionais, como o apoio ao ensino remoto. Outras tarefas de cuidado, como os serviços domésticos e o cuidado de pessoas que precisam de assistência, também demandaram mais horas de atenção das pessoas em trabalho remoto.
O cenário acima é propício para o aprofundamento de muitas desigualdades. Podemos analisar, por exemplo, o diferencial entre trabalho remoto de pessoas negras e pessoas brancas, pessoas do sudeste e do norte, pessoas com mais e menos anos de escolaridade para questionar se não seria possível estender arranjos de trabalho remoto para mais pessoas. Para isso, seria necessário olhar para o setor, o tipo de trabalho realizado, as possibilidades de conexão à internet, entre outros fatores. Essa análise pode ser feita por empresas e organizações para garantir que seus colaboradores tenham mais chances de se proteger no contexto da pandemia da COVID-19. São também fundamentais políticas públicas que permitam que as pessoas se desloquem menos e possam ficar em casa, sempre que necessário.
Se a possibilidade de trabalho remoto é importante para a saúde das pessoas, a simples adoção do trabalho remoto, sem consideração às condições de trabalho das pessoas, tampouco contribui para o enfrentamento às desigualdades. Mulheres em todo o mundo têm relatado que estão exaustas, solitárias e estressadas. Segundo reportagem da revista The Economist, muitas mulheres sentem que estão falhando com seus filhos e com seus empregos. Dados da OIT revelam que a força de trabalho global feminina encolheu 3,3%, contra 1,7% da força de trabalho masculina. No Brasil, menos da metade das mulheres (46,3%) estão ocupadas ou em busca de trabalho, o menor percentual em 30 anos (PNADc 2020).
As dificuldades enfrentadas pelas mulheres no trabalho remoto, relacionadas ao trabalho de cuidado, têm impacto na sua saúde física, mental e em sua progressão profissional. Além de estarem exaustas, é possível que tenham que abrir mão de oportunidades profissionais necessárias para a progressão de suas carreiras, e empresas e organizações podem acabar penalizando mães e cuidadoras, afastando-as de responsabilidades importantes.
Para que a pandemia da COVID-19 não represente um retrocesso na construção de um mundo do trabalho mais justo, é fundamental que empresas e organizações desenhem e implementem políticas de flexibilidade de trabalho que levem as condições de trabalho das pessoas que cuidam em consideração.
