Em 1973, quando da publicação de seu livro “The Coming of Post-Industrial Society” (sem tradução para o português), o sociólogo americano Daniel Bell vislumbrou a iminência de uma gigantesca transformação na forma como nos organizamos econômica e socialmente. À época, o autor previa o estabelecimento de uma “sociedade da informação”, em que a produção de bens deixaria de ser o núcleo de nossa economia e seria substituída pela comercialização de dados e informações.

O futuro previsto por Bell não demorou muito para chegar. Hoje, com uma maior predominância do setor de serviços, em detrimento do setor de manufaturas, as tecnologias de informação criam uma camada extra ao desenvolvimento econômico e social e acabam por reforçar estruturas de poder e de influência já existentes. A título de exemplificação, no momento em que este texto foi escrito, as cinco maiores empresas de capital aberto do mundo, em termos de capitalização de mercado, pertenciam ao segmento de tecnologia e informação.

Diariamente, essas e outras empresas coletam uma enorme quantidade de dados pessoais que, por sua vez, são usados na seleção do conteúdo a ser apresentado a suas usuárias e a seus usuários. Não somente isso, também fornecem instrumentos e plataformas para que indivíduos possam criar e disponibilizar materiais próprios. O resultado dessa combinação é a criação massiva de textos, imagens, áudios e vídeos que, ao invés de ajudar na redução de incertezas, aumenta a dificuldade de identificar informações confiáveis.

Uma verdadeira transformação social somente acontece quando convertemos informações de valor em conhecimento e permitimos que as pessoas tenham iguais oportunidades de acesso às ferramentas que levem a este conhecimento. Nesse sentido, o módulo de Tecnologia da Informação e Comunicação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (TIC/PNAD-C) de 2018, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou que o percentual de domicílios brasileiros que utilizam a internet tem se tornado cada vez mais expressivo ao longo do tempo e já atingia aproximadamente 80% naquele ano. Hoje, em um contexto de distanciamento social, é possível que esse número seja ainda mais expressivo.

Ao mesmo tempo que expandimos o acesso à internet no país, não devemos nos apoiar na concepção tradicional sobre as implicações sociais da tecnologia que enxerga o acesso como uma força independente e que leva a resultados previsíveis. Precisamos ter em mente que, com a tecnologia em mãos, indivíduos e organizações detêm o poder de decidir sobre o modo de uso desta tecnologia e, como consequência, reconfiguram o acesso para si e para o restante da sociedade. Em outras palavras, alteram a balança de poder de comunicação e informação em prol de determinados agentes e em detrimento de outros, a depender do resultado de suas interações [1].

Assim como em qualquer relação de poder, somos direta e indiretamente impactadas e impactados. Sabendo que essa reconfiguração de acesso altera nossas oportunidades futuras, precisamos estar cientes de que nossas escolhas, ainda que pequenas, podem sim alterar o equilíbrio dessa balança. Nesse sentido, a Cuidemos tem a consciência, a responsabilidade e o compromisso de democratizar o acesso e de promover a transformação social, a partir da divulgação de informações e dados amplamente ancorados   na ciência, na academia e, acima de tudo, na verdade.

[1] DUTTON, William. Social transformation in an information society: rethinking access to you and the world. UNESCO, 2004.